Tem muita razão o Banco da Amazônia (BASA), e o Banco do Brasil (BB), em restringirem crédito à agricultura familiar no Tocantins e em outras partes do Brasil – ressalvando as exceções -, segmento sob a assistência do Instituto de Desenvolvimento Rural do Tocantins (Ruraltins).

Em junho de 2017, Marcelo Miranda entrega equipamentos ao Ruraltins, iniciando um processo de restauração do órgão (Foto: Secom-TO)

Diante desta polêmica envolvendo o BASA, o Ministério Público Federal (MPF) e o Ruraltins, lembro-me de quando, em 2014 ou 2015, quando assessorava a Fundação de Apoio a Pesquisa no Corredor Centro-Norte de Exportação (Fapcen), na organização da Agrobalsas (feira de agrotecnologia do sul do Maranhão), a superintendente da Fapcen, a Agrônoma Gisela Introvini, defendeu, em reunião, junto a gerentes destas duas instituições financeiras e a secretários de agricultura dos municípios daquela região, a efetiva participação da agricultura familiar na feira, contracenando com a agricultura empresarial. Imediatamente, os representantes dos bancos expuseram, veementemente, restrição a este segmento da agropecuária brasileira e explicaram: em alguns agricultores, a falta de aptidão para a terra, o uso desta para outras finalidades; falta de capital de giro e garantias. Do outro, falta de assistência técnica e extensão rural, garantindo a safra e seu retorno financeiro.

Imediatamente, ao ouvir meus argumentos sobre a agricultura no âmbito das duas modalidades, durante a reunião, o então secretário de Agricultura do município de Balsas – de cujo nome não me lembro -, resolveu promover um seminário voltado para a agricultura familiar e me propôs fazer uma palestra específica durante o evento.

Quase 200 agricultores familiares da região de Balsas compareceram ao evento. Durante minha palestra pude perceber, na platéia, o que os gerentes daqueles bancos relataram. Mas muita gente da terra querendo trabalhar, mas sem ter condições financeiras e de ATER.

Bom, voltando para o caso MPF/BASA/Ruraltins.

Consultado, sobre a resposta do BASA ao MPF, o atual presidente do Ruraltins, Thiago Dourado, alegou que assumiu um órgão sucateado, conforme alegou o BASA: “Sem viaturas e quando tem viaturas não tem gasolina, para os extensionistas”, disto para pior.

Tem razão o Thiago Dourado quando diz que ao longo de diversos governos o órgão vinha sendo sucateado. Sim, isto desde a década de 1990, quando todos os sistemas de ATER (as Emater) no Brasil passaram por um esquema de desmonte e até de extinção. Isto no Tocantins, também, a partir do segunda gestão governamental de Siqueira Campos; passou pelo primeiro e segundo mandatos de Marcelo Miranda; parrou por Gaguim, Sandoval e entrou numa fase de resgate no terceiro mandato de Marcelo Miranda, cassado em 2018.

Nem por isto, graças ao empenho e competência de seus extensionistas, o Ruraltins deixou de ser um dos órgãos públicos de ATER mais atuantes do Brasil. Sabe Deus da angústia deste pessoal – dos que vestem a camisa da causa no serviço público -, no exercício diário da atividade.

Veículos foram entregues ao Ruraltins, nesta mesma época (Foto: Secom/TO)

Em 2017, por exemplo, o governo de Marcelo Miranda, que nomeou para a presidência do órgão um técnico da área de agropecuária, investiu R$ 1,2 milhão, em veículos e equipamentos de informática que subsidiariam o trabalho dos extensionistas rurais do Ruraltins, unidade central, e as regionais de Araguatins, Araguaína, Gurupi, Paraíso, Miracema, Porto Nacional e Taguatinga.

Palavras de Marcelo Miranda, na solenidade de entrega dos equipamentos:

“Trazemos essas melhorias graças às parcerias Governo do Estado, de emendas parlamentares, da união com a KFW (Agência Alemã de Cooperação Financeira), e não poderia deixar de citar, aqui, a parceria com o Governo Federal.”

Foram entregues, naquela época, um micro-ônibus, com capacidade de 28 lugares; duas caminhonetes L200/Triton, e 15 carros modelo Gol. Além de 150 computadores, 160 monitores de Led, 159 nobreaks, 20 estabilizadores e 15 ultrabooks.

O Ruraltins assiste – de forma precária -,  mais de 19 mil famílias em unidades de produção familiar atendidas pelos 702 profissionais do órgão, sendo 419 técnicos extensionistas, de várias formações, que levam aos municípios as políticas públicas dos governos federal e estadual.

O que fez o atual governador, Mauro Carlesse? Irresponsavelmente, desrespeitosamente aos direitos dos extensionistas públicos e de seus assistidos, fez do órgão barganha político-partidária. Primeiro, nomeando um presidente e, poucos meses depois o demitindo, em conseqüência de desentendimento com um dos parlamentares de sua base de apoio; deixou o órgão meses sem um gestor.

Por fim, em outra barganha política (ou compensação – uma chupeta na boca de uma criança, para ela ficar quieta) mandou para o, apesar de tudo, glorioso Ruraltins um presidente totalmente alheio às áreas de Agronomia, Zootecnia, Veterinária, entre outras profissões necessárias dentro de um órgão de assistência técnica e extensão rural.

Pelo o que o Ruraltins vem passando e dado a importância da agricultura familiar no Tocantins, o órgão deveria ser tratado com prioridade pelo Palácio Araguaia: orçamento adequado, um técnico de carreira da instituição, ou alguém de fora, mas ligado a ATER na sua Presidência e  mais respeito.

Thiago Dourado, desde quando assumiu o órgão, embora imbuído de boa vontade,  vem se mostrando perdidão e apático naquilo que irresponsavelmente foi nomeado.

Ruraltins é uma pasta técnica. Interesses políticos deveriam passar muito distante dele.

Antônio Oliveira