A castanha-de-galinha é uma das opções para o plantio consorciado (Foto: Fernando Goss)

*Da Agência Embrapa de Notícias

O plantio consorciado de fruteiras nativas com culturas alimentares de ciclo curto, como macaxeira, abóbora e maxixe, é uma opção economicamente viável para agricultores familiares da região amazônica porque reduz os custos de implantação de pequenos pomares, ao mesmo tempo em que estimula a diversificação alimentar.

A Embrapa Amazônia Ocidental (AM) investe há cinco anos nessa prática com produtores rurais de municípios da região metropolitana de Manaus, tendo como carro-chefe o cupuaçuzeiro. Além de contribuir para a preservação da biodiversidade, a iniciativa tem potencial para aumentar a oferta desses frutos nas feiras e mercados das cidades da região Norte, abrindo novos nichos de mercado para velhos sabores locais.

O reconhecimento do valor de fruteiras como a castanha-de-cutia é fundamental para a conservação das espécies e da biodiversidade (Foto: Fernando Goss)

Segundo a pesquisadora da Embrapa Aparecida das Graças Claret, usando as entrelinhas dos cupuaçuzeiros, os agricultores estão diversificando os pomares com outras espécies nativas, algumas pouco conhecidas dos jovens consumidores, mas com sabor bastante apreciado pelos antigos amazônidas que coletavam seus alimentos na floresta.

Entre as fruteiras nativas que fazem parte do projeto estão a sorva, abiu, biribá, bacaba, caramuri, sapota, mapati (uva da Amazônia), castanha-de-galinha, castanha-de-cutia, araçá-boi, araçá-pera, castanha-do-brasil e açaí.

– O agricultor pode agora diversificar a sua alimentação, vender o excedente e ainda colher e beneficiar o cupuaçu – comenta.

O projeto é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e também levou aos produtores a ideia de plantar nas entrelinhas dos cupuaçuzeiros culturas alimentares como mandioca, abóbora, melancia, maxixe, entre outras de rápido crescimento, criando alternativas de alimento, ocupação e renda no campo, até o cupuaçu começar a produzir, entre dois a três anos após o plantio.

–  Com isso, se aproveita as entrelinhas plantando as culturas anuais, como macaxeira, mandioca, milho e feijão, que servem não apenas como alimento, mas também para garantir retorno econômico dos investimentos – explica Ferdinando Barreto, pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental.

No projeto, ele tem trabalhado nas atividades com mandioca, macaxeira, milho e no próximo ano pretende levar o feijão-caupi.

Durante o desenvolvimento da cultura perene, é possível obter vários ciclos de culturas anuais. A mandioca, que tem um ciclo mais longo, vai precisar de cerca de um ano, mas o milho pode levar dois a três ciclos até a cultura perene crescer e começar a produzir.

– Por isso, essa prática é tão positiva. Permite aproveitar a mão de obra, melhorar o uso da terra e obter maior retorno financeiro – explica Barreto.

Novos mercados para velhos sabores

As frutas nativas, apesar de apreciadas por grande parte da população, ainda são raras e caras nas feiras e mercados de Manaus. A pesquisadora atribui esse fato à baixa produção e, por isso, acredita que o projeto de incentivo ao cultivo em áreas próximas à capital amazonense pode reverter esse quadro.

– Quanto mais os produtores plantam, mais diversidade haverá no mercado à disposição do consumidor, que passa a conhecer e testar novos sabores. Com o aumento da demanda, o setor produtivo terá motivos para aumentar a oferta – explica.

Portanto, é de grande importância mostrar aos agricultores o valor das fruteiras nativas.

– O conhecimento do potencial dessas espécies é fundamental para a sua conservação. O que não é conhecido nem utilizado acaba se perdendo na história. Muitas vezes, as pessoas cortam uma planta porque não conhecem o seu valor e a importância para a biodiversidade – comenta Aparecida.

A vantagem de escolher o cupuaçu como principal cultura é porque muitos agricultores já conhecem a espécie e sabem que terão mercado garantido, além de ser uma fruteira precoce que começa a produzir entre dois e três anos, enquanto outras levam de sete a oito anos. Do cupuaçu se produz várias iguarias na forma de geleias, doces, bebidas, entre outras. Suas amêndoas contêm elevado teor de gordura, sendo muito utilizadas na produção de cosméticos e cupulate (uma versão do chocolate).

O espaçamento recomendado pela pesquisa é de 7 x 7 metros entre cada pé do cupuaçuzeiro, quando intercalado com outras fruteiras. Mas não há de fato um padrão fixo e as formas de plantio podem variar de acordo com as espécies escolhidas. Pode se usar também uma cobertura com puerária, cuja massa vegetal pode ajudar na recuperação do solo.

Cultivares de cupuaçu de alta produtividade desenvolvidas pela Embrapa, por serem resistentes à vassoura-de-bruxa, têm contribuído para minimizar os prejuízos causados pela praga (Foto: Ronaldo Rosa)

Incentivo governamental ao cupuaçu 

Segundo dados do Censo Agropecuário 2017, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o estado do Amazonas tem aproximadamente 81 mil estabelecimentos agropecuários. Desses, 70.358 mil desenvolvem algum tipo de agricultura familiar. A banana foi a principal fruta produzida no estado, com 69.613 toneladas colhidas. Em seguida, vieram o açaí (21.321 t) e o cupuaçu (6.002 t).

O Amazonas possui uma área plantada de seis mil hectares de cupuaçuzeiros, envolvendo cinco mil agricultores familiares, com um volume de produção em torno de 10 milhões de frutos, segundo dados do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas (Idam), o órgão de assistência do estado.

Apesar de ter uma grande aceitação no mercado, os agricultores familiares tiveram que diminuir suas áreas de cultivo devido ao aparecimento de pragas (vassoura-de-bruxa e broca do fruto), que causaram grandes prejuízos econômicos. Mas, de acordo com o Idam, as cultivares de alta produtividade desenvolvidas pela Embrapa, que variam de sete a dez toneladas de frutos por hectare, elevando o rendimento de polpa e amêndoa, por serem resistentes à vassoura-de-bruxa, têm contribuído para minimizar esses problemas.

Embora as indústrias de beneficiamento já dominem técnicas de produção de polpas, doces, sucos e mix com o fruto, há outros problemas que enfraquecem a cadeia produtiva do cupuaçu, como a perda de produto in natura por deficiência de estruturas de beneficiamento primário e armazenamento nas regiões produtoras.

Por isso, o Idam pretende ampliar os serviços de Ater aos agricultores familiares e produtores rurais nos sete municípios maiores produtores de cupuaçu. A previsão de recursos entre 2019 e 2022 é de R$ 3 milhões para crédito rural e R$ 1,5 milhão, para custeio de Ater. Com essas medidas, espera aumentar a produção de 274,4 toneladas em 2019 para 4.019 toneladas em 2022, e a produtividade de 0,4 t/hectare para 3 toneladas por hectare.

Diversificação de sabores: ciência busca novos “açaís” e “cupuaçus” na Amazônia

A rica biodiversidade da Amazônia também pode contribuir em termos nutricionais e com novos sabores, possibilitando ao mercado aumentar a variedade de alimentos, como aconteceu com o açaí, cuja oferta vem crescendo nos últimos 30 anos, e é exportado para vários países devido, principalmente, à divulgação de seus subprodutos.

– Precisamos incentivar a sociedade a conhecer as espécies nativas, senão vamos perder essas riquezas –  pondera a cientista.

– Percebo que muitos produtores não conhecem as fruteiras nativas, não sabem que podem consumir e terminam cortando essas plantas – lamenta.

Como exemplo, cita o araçá-boi, que é uma cultura que produz bastante, com plantas precoces e tem uma diversidade de uso muito grande na produção de sucos, geleias, doces, licores e outros.

Nas suas visitas aos agricultores, a pesquisadora repassa essas informações, mostra a importância de investir em produção para atender ao mercado.

– Se não dá para atender ao mercado regional, atenda ao local, que já é um incentivo à conservação dessas espécies – recomenda Claret.

Temos que pensar em atender pelo menos o mercado local, como acontece com o tucumã, usado como recheio do sanduiche caboquinho, a pupunha e o cará cozidos, muito apreciados nos lanches e cafés da manhã de Manaus e redondezas. As fruteiras nativas têm como vantagens a adaptação às condições locais e exigência de poucos cuidados de manejo.

Entre as ações do projeto, os pesquisadores da Embrapa realizaram cursos de compostagem para produção de adubação orgânica, aproveitamento dos materiais disponíveis, cursos de culturas anuais de milho e mandioca. O próximo curso será com base nas fruteiras nativas que já estão produzindo e em um levantamento do que têm em suas áreas. Atualmente, está em desenvolvimento uma pesquisa com o público amazonense para saber seu nível de conhecimento e consumo das frutas do bioma Amazônia. Com base nos resultados, será realizado um evento de divulgação das fruteiras.

O plantio consorciado de fruteiras nativas com culturas alimentares de ciclo curto é uma opção economicamente viável para agricultores familiares da região amazônica. Reduz os custos de implantação de pequenos pomares e estimula a diversificação alimentar (Foto: Maria José Tupinambá)

Agricultores familiares apoiam a diversificação das fruteiras

Raimundo Nonato Pereira dos Santos (foto) plantou nas entrelinhas dos cupuaçuzeiros resistentes levados pela Embrapa pés de açaí, maracujá, castanha-de-cutia e castanha-de-galinha. Nascido em Manaus e criado no município de Manacapuru, no interior do Amazonas, não conhecia as duas últimas fruteiras. Para ele, a importância de cultivar as espécies nativas será também para alimentar os “seus bichinhos” que andam pela plantação e vivem na floresta: macacos e cutias.

– Ainda estarei protegendo a natureza – orgulha-se.

O agricultor José Inês Marcelino Machado, desde 1998, planta macaxeira, banana, coco, laranja, limão e cupuaçu em seu sítio Santa Rita, de 100 hectares, em Presidente Figueiredo (AM). Há cinco anos, ingressou no projeto mesmo sem conhecer as espécies. Apostou no potencial produtivo e na possível comercialização das frutas nativas e está satisfeito com a variação dos plantios.

– A gente plantou e a nossa intenção é ver como vai produzir e aumentar os plantios, além disso, não requer muita mão de obra – comenta.

Ele já colheu mapati, araçá-boi, biribá, abiu e agora as castanheiras-de-cutia estão carregadas de frutos. Nem mesmo as cutias que vivem na mata e comem todos os frutos que caem da planta desanimam o agricultor, já que fazem parte do ciclo: comem, disseminam as sementes e colaboram com a biodiversidade.

*Texto reeditado por Cerrado Rural Agronegócios 

Foto: Maria José Tupinambá