Por Antônio Oliveira

Lá pelos anos de 1992 ou 1993, em Palmas, a capital do Tocantins – que hoje completa seus 31 anos de idade -,  tempos de pioneirismo, dificuldades, problemas sociais por todos os lados, muita lama, durante o período chuvoso, e muita poeira, durante a seca.  Eu era produtor, editorialista e apresentador de um programa bem popular, transmitido para quase todo o Estado, na TV Palmas, emissora da então estatal tocantinense,  Comunicatins. Era o Tribuna do Povo, de grande audiência, uma das maiores que as televisões  tocantinenses já tiveram até os dias de hoje.

Foto da desocupação desumana (Foto: Divulgação)

Naquela época, no trecho da LO-02, entre as concessionárias da Fiat e da Nissan e Renault e a NS-15 (alça viária da capital), haviam poucos prédios residenciais e comerciais, mas uma imensa aglomeração de barracos ocupando o leito da avenida, ainda de chão batido. Eram de famílias e de prostíbulos – as chamadas “casas das tias”, na época apelida de “Bucetins”.

Certo dia, chegou à redação da emissora um senhor vindo do Nordeste do Brasil em busca de um novo tempo na mais nova cidade planejada do mundo. Comprara um imóvel numa das alamedas próximas ao “Bucetins”, onde construíra sua residência. Reclamara para mim ser um absurdo ter feito o investimento na nova cidade, assentar sua família e todos dias se deparar com aquela “pouca vergonha”. Pedira que o meu programa fizesse uma reportagem e pedisse às autoridades a retirada daquele amontoado de barracos da “senvergonhiesse, o mais rápido possível”.

– Meu senhor, sua reclamação e indignação procedem.  Mas a coisa não funciona assim. Não se pode resolver um problema, criando outro. Para onde levar aquele pessoal, não só da prostituição, mas de trabalhadores em busca de melhores condições de vida? – disse eu a ele.

– Ah, é! O senhor, assim como o secretário de Justiça e Segurança Pública (do governo do Dr. Moisés Avelino, o tocantinense, de Tocantinópolis,  Dr. Júlio Resplande, desembargador aposentado pelo Tribunal de Justiça de Goiás, um homem ético e íntegro), deve ter conta corrente lá. Ele me deu esta mesma resposta – respondeu o senhor, muito irritado. Levantou-se e foi embora praguejando.

A reportagem fora feita, não pressionando o governo do Estado e a prefeitura de Palmas para retirarem aquelas famílias de lá, do dia para a noite. Mas sim buscando meios de se resolver aquele problema social. E foi resolvido, sem humilhar a pessoa humana, criando outro problema.

Contei esta história cômica, que faz parte da história de Palmas, hoje completando seus 31 anos de fundação – uma das epopeias mais bonitas da história do Brasil -, em preâmbulo aos meus comentário e opinião, a seguir, em relação a desocupação de uma área pública no Jardim Taquari, na última segunda-feira, 18 de maio, quando 40 barracos foram ao chão, numa escandalosa falta de respeito ao ser humano.

É legal invadir e ocupar áreas públicas e privadas? Não, não é legal. Mas, geralmente, invasões de terras, principalmente de áreas públicas, se dão em função da inércia, falta de sensibilidade, incompetência e de eficiente política pública habitacional de governos da União, do Estado e do Município. Aliás, o Jardim Taquari, um dos maiores bairros populares do Brasil, fora criado, num dos governos de Siqueira Campos, justamente para abrigar, de forma legal e com dignidade, famílias socialmente carentes e sem teto que viviam em casas e barracos de aluguel ou jogadas por ai, sem eira e sem beira. Um acerto.

Entretanto,  há naquele bairro um conjunto de casas populares feito há anos pelo governo federal em parceria com o município e o Estado e muitas áreas residenciais ainda não ocupadas. Por que? Por irregularidades, incompetência, burocracia, falta de sensibilidade e respeito ao povo – este respeitado, querido e disputado apenas em período eleitoral. Motivos da invasão e ocupação daquela área – ressalvado os oportunistas e especuladores infiltrados.

Mas, jamais, por envolver vidas e esperança, o poder público deveria ter agido, como sempre, aqui e alhures, de forma truculenta, sem diálogo, principalmente no período crítico em que vivemos em Palmas, no Tocantins, no Brasil e no mundo. Faltou, como sempre,  o diálogo, o levantamento da situação de cada família, buscando quem realmente precisa e identificando os oportunistas e especuladores. Para estes, os rigores da Lei; para aqueles,  tempo para buscar uma solução; para o contexto, a força pública municipal para evitar o crescimento daquela  invasão.

Palmas nasceu, conforme seu próprio fundador, Siqueira Campos, para ser das elites (seu Plano Diretor) e que o povão, vindo de todas as partes do Brasil, em busca de um horizonte de paz e prosperidade,  fosse para as periferias. Assim, a cidade nasceu e cresceu de forma equivocada: de fora para dentro, e não de dentro para fora, como Goiânia – apenas citando um exemplo. Sobra terra em Palmas, portanto seus pioneiros e trabalhadores não deveriam passar por esta e outras situações já registradas ao longo da história em Palmas. Muita terra urbana ociosa nas mãos das elites sociais, econômicas e políticas para especulação, poupança.

Vice-prefeita, guinada a prefeita por força da ganância de poder do titular eleito, Carlos Amastha, e pré-candidata a reeleição, a prefeita Cinthia Ribeiro carece de mais conhecimento da realidade social e econômica (potenciais não explorados por falta de visão dos poderes públicos municipais, e dela mesmo) do município; precisa descer do seu pedestal e ter uma assessoria mais humilde – ressalvando as raríssimas exceções em sua equipe -, precisa viver mais a realidade social do município e menos política, sede de poder. Mais uma vez, pisou no tomate.

Envolve aqui, também, o governador do Tocantins, Mauro Carlesse. Ele não deveria ter se aproveitado da desgraça alheia, neste caso e no caso da pandemia, para se promover pessoal e politicamente. Se sentiu a necessidade de doar cestas básicas para aquelas famílias, que o fizesse sem alarde, sem anunciar para imprensa, via releases, que fez a doação, num claro propósito de tirar proveito político da situação e pisar no calo de sua adversária. Isto é deselegante, humilha o cidadão e evidencia a pequenez de quem faz isto. E o dinheiro que adquiriu essas cestas é público (e é preciso ser mostrado a sociedade como essas cestas estão sendo adquiridas).

A pessoa humana deve ser respeitada em qualquer situação social, econômica e política. Em qualquer tempo e lugar.