Sede da Aprosoja-MT (Foto: Divulgação)

Por Antônio Oliveira

Num ato de rebeldia, ignorância, ingratidão e exposição indevida de uma das maiores instituições de pesquisas agropecuárias do mundo, a Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso (Aprosoja-MT) veio a público, nesta semana, atacar a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), inclusive fazendo questionamentos sem fundamento, sem provas, subestimando, inclusive, a importância da estatal para a segurança alimentar e ambiental do Brasil. Aliás, este posicionamento da instituição mato-grossense segue a linha adotada, nos últimos  17 meses, pela Aprosoja Brasil e contribui para colocar em risco o agronegócio brasileiro: a linha irresponsável do bolsonarismo, por meio da sua política de meio ambiente, indígena e fundiária, tentando jogar no lixo conquistas que fazem do Brasil um país respeitado por sua produção agrícola sustentável e altamente tecnológica. Em síntese, uma linha do imediatismo.

Este comportamento da Aprosoja-MT se dá em resposta a Embrapa Soja que, em nota, publicada nesta terça-feira (19.05), se posicionou contra a pesquisa científica a campo conduzida pela Fundação Rio Verde e Instituto Agris, para fins de avaliar o melhor período para produção de semente de soja em Mato Grosso – se em dezembro ou fevereiro.

“Foi-se o tempo em que a Embrapa realmente aplicava seu orçamento público em pesquisa

“O que a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) tem feito com seu orçamento público anual de R$ 3.710.887.832,00?”. É um dos ataques da Aprosoja-MT, demonstrando falta de conhecimento ou má fé. A Embrapa tem feito malabarismo para tocar seus projetos de pesquisas em diferentes áreas da Ciência e de nichos de mercado em todo o Brasil com estes recursos e só tem conseguido vitórias porque busca ou é procurado por parceiros. A empresa precisa de muito mais para atender todas as demandas do seu imenso leque de atuação.

A instituição mato-grossense aponta também mau uso do dinheiro empregado no orçamento da Embrapa, com a não realização de estudos e pesquisas científicas e questiona a necessidade de 44 unidades de pesquisa espalhadas pelo país e o quadro de pessoal, que gira em torno de quase 9 mil colaboradores. Apontamentos e questionamentos levianos, digo eu.

“Foi-se o tempo em que a Embrapa realmente aplicava seu orçamento público em pesquisa. Esta Empresa, assim como toda estrutura pública estatal atualmente no Brasil, aplica todo seu recurso em estrutura física e de pessoal. A Embrapa se tornou um verdadeiro ‘elefante branco’, pesado como a máquina estatal, e com um custo desproporcional à sua utilidade ou valor”. Este é mais um ataque irresponsável e sem apresentar provas da Aprosoja – MT e confunde a Embrapa com estatais que sempre foram tocadas à serviço de partidos políticos e de seus parasitas, sugadores dos recursos públicos.

“Atualmente o que se vê é uma Empresa de pesquisa na área da soja, onde sua grande massa de pesquisadores sequer tem recurso para fazer pesquisa à campo

A Aprosoja – MT apontou sua metralhadora desregulada, talvez made in fundo de quintal no Paraguai, também, para a Embrapa Soja. Segundo ela, este Centro Nacional de Pesquisa, “não exerce a função pela qual foi criada na década de 70, que seria fomentar ciência e conhecimento, com objetivo de reduzir o diferencial entre o crescimento da demanda e da oferta de alimentos, demanda brasileira naquela época.” Acusações levianas, afirmo.

Os ataques, ignorância e má fé continuam:

“Atualmente o que se vê é uma Empresa de pesquisa na área da soja, onde sua grande massa de pesquisadores sequer tem recurso para fazer pesquisa à campo, vivendo somente de romantismo e experiências do passado, dentro de suas salas com ar condicionado. A agricultura é dinâmica e necessita de ciência e tecnologia. É necessário que as pesquisas sejam desenvolvidas a campo, e não somente fundamentadas em notas técnicas com base em experiências. O campo é dinâmico, as mudanças são constantes, e as verdadeiras entidades de pesquisa precisam se adaptar todos os dias à velocidade dessa dinamicidade. Se é para viver somente de experiência do passado, como a Embrapa Soja, não há necessidade de tantos centros de pesquisa, um número imenso de pessoal, e um orçamento público bilionário as custas do contribuinte, já que o objetivo da verdadeira pesquisa concreta não está sendo alcançado”, destaca a Aprosoja.” E destaca, mais uma vez, de forma equivocada e maldosa.

É óbvio que a Embrapa Soja, assim como outras 43 unidades de pesquisas não estão voando em céu de brigadeiro. Há dificuldades, sim. Porém, seus pesquisadores e melhoristas não estão parados. Têm juntado o pouco que a Casa tem com o pouco que os parceiros oferecem e se movimentam em campo e em seus laboratórios. Não ver isto é ignorância, má fé ou ação movida pelo ódio que tem tomado de conta de uma facção de brasileiros nestes tempos sombrios. Tempos em que o povo brasileiro saiu da fila da forca e foi para a fila da guilhotina.

“Se o Tocantins pode, porque não o Mato Grosso”

A Embrapa Soja, com sede em Londrina (PR), ancora sua posição técnica baseada em pesquisas realizadas ao longo da história. A Aprosoja – MT alega que tem questionado a Embrapa à apresentar tais pesquisas, bem como suas respectivas metodologias científicas publicadas, mas ela se omite.

“Apesar de provocada formalmente por diversas vezes, a Embrapa Soja nunca apresentou a metodologia e a pesquisa científica que embasou a calendarização do plantio da soja em Mato Grosso, muito provavelmente porque sequer tem essas pesquisas e resultados, o que contraria, inclusive, a Instrução Normativa nº 002/2007, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), que Instituiu o Programa Nacional de Controle da Ferrugem Asiática da Soja (PNCFS)”. Questiona a Aprosoja e, convenhamos, erra a Embrapa se, realmente,  não apresentou esta metodologia. Mas será que não está faltando diplomacia, diálogo, ao invés desses ataques rasteiros?

“Se o Tocantins pode, porque não o Mato Grosso”, questiona, na prática, a Aprosoja – MT:

“Pois bem, o que a Embrapa teria a dizer, então, a respeito dos 62 mil hectares de cultivos de soja para produção de semente comercial, autorizados pelo Mapa, com o seu aval técnico, nas várzeas tropicais do Tocantins, durante o Vazio Sanitário, na região que compreende os municípios de Lagoa da Confusão, Pium, Formoso do Araguaia, Guaraí e Dueré?”.

“O conceito de Vazio Sanitário estabelecido pela Embrapa Soja como sendo o período de no mínimo 60 dias sem a cultura e plantas voluntárias no campo, não estaria sendo violado?

Aqui no Tocantins, por orientação da Instrução Normativa nº 003/2020, da Agência de Defesa Agropecuária do Tocantins (Adapec),  está autorizado, no estado, o cultivo de soja na safra normal de 1º de outubro a 15 de janeiro, estendendo-se a colheita até o mês de abril. Estabelecendo, ainda, que o período de Vazio Sanitário, também, no Tocantins, vai de 1º de julho a 30 de setembro. E que a autorização para semeadura de semente de soja comercial que, excepcionalmente adentra referido período proibitivo, será determinada por janela de plantio, iniciando-se em 20 de abril e finalizando em 31 de maio de cada ano como data limite, sendo obrigatória a colheita da área plantada excepcionalmente no período do Vazio Sanitário até 30 de setembro.

Questiona a Aprosoja – MT:

“São 365 dias do ano com planta viva de soja neste estado. Para a Embrapa Soja, isso não seria considerado ‘ponte verde’? O conceito de Vazio Sanitário estabelecido pela Embrapa Soja como sendo o período de no mínimo 60 dias sem a cultura e plantas voluntárias no campo, não estaria sendo violado?”

Ainda sobre isto, a Aprosoja – MT alega que já havia enviado oficio à Embrapa Soja questionando esta prerrogativa do Tocantins:

“Sobre a presença de plantas vivas de soja dentro do período proibitivo do Vazio Sanitário, e se isso representa riscos fitossanitários para os outros Estados produtores de soja, bem como se a Embrapa tomou parte, contribuindo tecnicamente para a liberação dos plantios para semente de soja durante o período do Vazio Sanitário nas várzeas tropicais do Tocantins. Solicitou, também, a disponibilização dos relatórios técnicos e publicações científicas que embasaram essa liberação, e se houve análise assertiva sobre genética de populações do fungo da Ferrugem Asiática, com fins de avaliação sobre resistência ao uso de fungicidas, nesses cultivos dentro do Vazio Sanitário, assim como os riscos fitossanitários que isso representa para os plantios de soja já semeados no Estado de Mato Grosso, com a disseminação/severidade/mutação do fungo da ferrugem asiática da soja. Todavia, ainda não houve respostas”.

O fungo da ferrugem asiática continua presente, originário de lavouras anteriores e continua se reproduzindo

A Aprosoja – MT lembra, em seus questionamentos,  que:

“Esses cultivos dentro do Vazio Sanitário no Tocantins somente estão autorizados para a produção de sementes comerciais pelas Sementeiras, muitas delas, inclusive, oriundas do Estado de Mato Grosso”.

E continua afirmando que as autorizações dadas dentro de Mato Grosso para excepcionalidade de plantio dentro do período proibitivo, só podem ser para melhoradores e sementeiros, tudo, com o aval da Embrapa e órgãos governamentais de controle. Em nenhuma das duas situações há permissão para o produtor produzir sua própria semente.

A Embrapa se posiciona sobre isto:

“O fungo da ferrugem asiática continua presente, originário de lavouras anteriores e continua se reproduzindo, com cada nova geração menos sensível ao controle químico”.

E Aprosoja MT replica:

“Dentro desse contexto, essa mutação fúngica não poderia estar ocorrendo mais frequentemente nesses cultivos excepcionais dentro do Vazio Sanitário, ou até mesmo nos experimentos de resistência dos fungicidas realizados pelas empresas produtoras destes químicos, as quais, inclusive, fazem parte do Comitê de Ação à Resistência a Fungicidas (Frac), no qual a Embrapa Soja se apoia para suas manifestações técnicas?”
E prossegue:

“O governo do Estado de Mato Grosso, os seus órgãos de agricultura e fiscalização sanitária, assim como o Ministério Público estadual estariam preocupados com essa situação em Tocantins?”

E a polêmica continua:

“Já que o risco fitossanitário afeta não somente este último estado, mas também, estados vizinhos como Goiás, Pará e o próprio Mato Grosso, que iniciam seus plantios normais da safra de soja após a primeira quinzena de setembro, todavia, já com um alto índice de esporo do fungo da ferrugem asiática no ar, tendo em vista o cultivo excepcional dentro do Vazio Sanitário em Tocantins. Afinal, se a própria Embrapa Soja propõe medidas preventivas contra a ferrugem asiática em países vizinhos, tendo em vista que os esporos do fungo migram facilmente com o vento e, estando presentes em um país, podem infestar o outro, o que dirá de estados vizinhos ao Tocantins que têm lavouras de soja em um raio de 150 quilômetros das várzeas tropicais deste estado.”


 E insiste questionando:

“A serviço de quem essa empresa pública está, do interesse coletivo e da busca pela verdade da ciência, ou de interesses econômicos e políticos? Enquanto todos esses questionamentos de relevante interesse para a sociedade e para a comunidade da ciência não forem respondidos, baseados em verdadeiras pesquisas e metodologias científicas, essa dúvida vai pairar no ar.”

E volta a questionar a lisura da Embrapa, sobretudo sua unidade de pesquisa da soja:

“Enquanto não houver uma verdadeira reforma na Embrapa, e mais especificamente na Embrapa Soja, e o orçamento público não cumprir a finalidade para a pesquisa, comprometida com a ciência e não com interesses políticos e econômicos, o ‘elefante branco’ somente aumentará de tamanho, e quem pagará a conta será a sociedade e o contribuinte”.

Olha, por não ser cientista, eu não quero entrar nesta questão do “Por que o Tocantins e nós, não” e “Por que o Mato Grosso não pode plantar soja em fevereiro?”

Mas acho  um equivoco, um desserviço muito grande esses ataques à instituição Embrapa, subestimando-a e abrindo brecha para o retorno, à cena, daqueles que num passado, não muito distante – lá no Governo Lula -, tentaram desestabilizar a Embrapa para, depois, privatizá-la. (Nesta época, Cerrado Rural Agronegócios foi um dos dois veículos de comunicação no Brasil a denunciar a bater contra este desmonte e privatização – veja fac-simile de nossa capa e clic aqui para o desdobramento do assunto em 2016). O mundo precisa do Brasil para sua segurança alimentar e o Brasil precisa da Embrapa como empresa pública. Temos que zelar por este patrimônio público, buscar soluções onde ela encontrar problemas. Não tentar derrubá-la por ódio, por interesses políticos e econômicos.

Fac-simile de nossa versão impressa com matéria que apurou e denunciou a tentativa de desmonte da Embrapa

Por fim, a Aprosoja – MT está sendo ingrata com a Embrapa, sobretudo com a Embrapa Cerrado e Embrapa Soja. Se seu presidente e seus associados plantam grãos e fibra no Cerrado do Mato Grosso, agradeçam  o pioneirismo destas duas unidades.