Nesta parte da série reportamos a migração da cotonicultura do Paraná e SãoPaulo para os cerrados do Centro-Oeste do Brasil; o pioneirismo e empreendedorismo de Olacyr de Moraes, Maeda, Ignacio Mammana Netto, Benjamim Zandonado, Adílton Sachetti, os primos Mário Patriota e Daniel Montoto, entre outros, para o sucesso da cultura na região.

Por Antônio Oliveira*

Algodão no Chapadão do Céu, divisa de Mato Grosso com Goiás, uma das regiões pioneiras no Centro-Oeste. (Foto: Divulgação)
Algodão no Chapadão do Céu, divisa de Mato Grosso com Goiás, uma das regiões pioneiras no Centro-Oeste. (Foto: Divulgação)

Após a bancarrota da cotonicultura no Paraná, os cerrados do Centro-Oeste brasileiro abriram-se para esta cultura, atraindo não só o plantio, mas o beneficiamento também, pois com a queda da produção no Paraná, muitos empresários transferiram a maioria das usinas deste estado para o Mato Grosso,  que foi o responsável em expandir a nova fronteira do algodão na região Centro-Oeste.

A necessidade de se fazer rotação com a cultura da soja também contribuíram para atrair o algodão para a região. Vale lembrar que, antes deste advento, Rondonópolis, no Mato Grosso, era conhecida, na década de 1960, como a “rainha do algodão”, graças ao cultivo de pequenos produtores.

Já em Mato Grosso do Sul, a cotonicultura começou pela região sul, a partir da implantação da Colônia Agrícola Federal de Dourados abrangendo os municípios de Naviraí, Glória de Dourados, Fátima do Sul, Deodápolis, entre outras.

A partir da década de 1990 a cultura se expandiu para outras regiões de Mato Grosso do Sul, especialmente nos municípios de Chapadão do Sul, São Gabriel do Oeste e Costa Rica.

A segunda metade da década de 1990 é tida como marca da migração da cultura do algodoeiro do Paraná para o Cerrado do Centro-Oeste. Atualmente, a região é a maior produtora nacional da fibra, sendo responsável por mais de 70% da produção nacional. Mato Grosso tem a maior produção na região e no Brasil, seguido pela Bahia.

O êxito da cultura do algodão nos cerrados do Centro-Oeste do Brasil deve-se às condições de clima favorável, terras planas – de fácil mecanização -, programas de incentivos dos estados da região e muita tecnologia desenvolvida por entidades como a Embrapa e o IAC (Instituto Agronômico de Campinas).

E é graças às pesquisas de melhoramento e de descoberta de novas variedades que melhor se enquadrariam nas condições edafoclimáticas da região que o Centro-Oeste detém as mais altas produtividades na cultura do algodoeiro no Brasil e no mundo em áreas de sequeiro.

Pioneirismo e empreendedorismo

A história da cotonicultura no Centro-Oeste, mais precisamente em Mato Grosso, tem nomes de desbravadores e empreendedores que não pensaram apenas neles, mas no futuro da cotonicultura na região, no Brasil.

Cerrado Rural Agronegócios foi buscar esta história na Associação Matogrosense dos Produtores de Algodão (Ampa).

Olacyr de Moraes
Olacyr de Moraes abriu as portas para as pesquisas no Mato Grosso. (Foto: Divulgação)

Segundo ela, “pode-se dizer que a história da cotonicultura empresarial em Mato Grosso começou com dois amigos, os paulistas Olacyr de Moraes (morto no ano passado) e Ignácio Mammana Netto. A eles se juntaram Benjamim Zandonadi, os primos Mário Patriota Fiori e Daniel Montoro e, num segundo momento, Adílton Sachetti”, conta a Ampa.

Mas antes destes abrirem fronteiras no Mato Grosso, em Goiás, na década de 1980, já ocorriam algumas experiências de cultivo mecanizado da fibra pela família Maeda e pelo lendário Paulo Lopes, de Santa Helena de Goiás e no Mato Grosso do Sul – região de Dourados.

Quando plantava algodão no Paraná, Ignácio Mammana Netto conheceu o Engenheiro Agrônomo Benjamim Zandonadi, assim como ele, ligado à Cooperativa Agrícola de Goioerê (Coagel).

Conforme o paranaense Mário Patriota, foi Inácio Mammana Netto quem sugeriu a Olacyr de Moraes, no início dos anos 1990, o cultivo de algodão no Chapadão dos Parecis. A ideia era sair da monocultura da soja. Nesta época, conforme a Ampa, Benjamim, Mário e seu primo Daniel também buscavam uma cultura alternativa no sul de Mato Grosso. Viam potencial para o algodão na região de Itiquira.

Com este ideal, Benjamim, Mário e Clóvis Patriota foram a Chapadão do Parecis conhecer as lavouras de algodão de Olacyr de Moraes (fazendas Itanorte), e de Ignácio (Fazenda Cantagalo). Voltaram encantados com os resultados alcançados com a variedade IAC 20.

Mais tarde, ainda conforme relato da Ampa, um fungo (ramulose) mudou os planos de Olacyr e Ignácio após a safra 1990/1991.  Ignácio, após conhecer a região de Itiquira e diante da avaliação  positiva da Embrapa Algodão em relação às condições edafoclimátcas da região para a cotonicultura, migrou-se para lá, plantando 1.500 hectares da variedade IAC 20 na safra 1991/1992. Ele atendia ao convite de Benjamim e Mário.

A Ampa conta ainda que cada um dos três amigos tinha sua própria lavoura e, enquanto Benjamim, Mário e Daniel cuidavam do preparo da terra, Ignácio disponibilizava suas máquinas para a colheita.

– Os quatro montaram uma algodoeira no Distrito Industrial de Rondonópolis – narra a Ampa.

Já Olacyr insistiu na região de Campo Novo do Parecis, investindo recursos próprios numa pesquisa que resultou no lançamento da variedade CNPA ITA 90 pelo Centro Nacional de Pesquisa de Algodão – atual Embrapa Algodão. O trabalho foi conduzido pelo pesquisador Eleusio Curvelo Freire.

– Iniciamos a atividade algodoeira com a visão de se produzir num modelo empresarial. Não queríamos comercializar o algodão in natura e, por isso, precisávamos de um volume de produção que viabilizasse o investimento para o beneficiamento e a comercialização do algodão em pluma – lembra Mario.

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Adílton Sacheti sobre aproveitar as oportunidades mostradas por Ignácio e amigos. (Foto: divulgação)

O empreendedorismo dos amigos Ignácio, Benjamim, Mário e Daniel se multiplicou na região. A família Sachetti, por exemplo, tinha fazenda vizinha às terras arrendadas por Ignácio. Adílton, o mais velho dos irmãos Sachetti se encantou com a cultura do algodão e a família fez um plantio experimental na safra 1992/1993 e não pararam mais de plantar algodão.

– Seu Ignácio era uma pessoa muito bacana e queria ver todo mundo ganhando dinheiro com a fibra – diz Sachetti.

Não foi fácil para esses pioneiros. Segundo relata Zandonadi, eles tinham que fazer o ajuste da cultura às condições climáticas da região e ainda enfrentar o descontrole da economia do País, com uma inflação galopante. Ainda conforme ele, o maior desafio veio com a crise após a safra 1994/1995, quando os agricultores ampliaram suas áreas de lavoura, animados com os resultados das safras anteriores.

Conforme relato da Ampa, os quatro amigos se entusiasmaram com a produtividade da variedade ITA 90, desenvolvida por Olacyr de Moraes, e plantada numa área experimental na safra 1992/1993. Na safra 1994/1995, eles plantaram cerca de 6.500 hectares com esta variedade. Foram mal sucedidos: os prejuízos causados por uma virose ( doença azul, que também afetou as lavouras de Olacyr de Moraes), causada pelo excesso de chuvas e o descontrole de pragas vetores da doença, frustraram seus planos.

– Nossa expectativa era colher uma média de 270@/ha e colhemos uma média de 60@/ha. Passamos por uma situação extremamente difícil – conta Mario.

Contudo, Mário sempre se diz orgulhoso de ter contribuído com outros pioneiros para alavancar a cultura do algodão no Mato Grosso e diz ainda acreditar que a experiência vivida por eles motivou varias iniciativas fundamentais para a consolidação do setor algodoeiro.

A Ampa comenta que a crise provocada pela safra 1994/1995 no Mato Grosso gerou muitas oportunidades. Primeiro, porque despertou o interesse pela pesquisa, o que motivou, de imediato, a criação de um grupo voltado para o algodão na Fundação MT e propiciou a criação do Programa de Apoio ao Algodão de Mato Grosso (Proalmat) e do Fundo de Apoio à Cultura do Algodão (Facual), aprovados em 1996, no Governo Dante de Oliveira.

A Ampa conta ainda que as dificuldades enfrentadas também estimularam os pioneiros e outros agricultores que tinham aderido a cultura do algodão a fundarem a Ampa, em 1997, e criando também o Instituto Algodão Social (IAS), em 2005, e o Instituto Mato-grossense do Algodão (IMAmt), em 2007.

– Aos poucos, a qualidade da pluma mato-grossense foi conquistando consumidores de outros estados brasileiros e do outro lado do mundo, consolidando um modelo de agricultura empresarial, altamente tecnificado, que contribuiu para que o Brasil voltasse a estar no ranking dos maiores exportadores – comemora a Ampa.

– A história do algodão em Mato Grosso é muito bonita e ela não foi feita por um só –  completa Sachetti.

Na próxima edição: o algodão se expande para os cerrados do Matopiba, tornando a Bahia o segundo maior produtor da fibra no Brasil.

*(Fontes desta segunda matéria da série: Ampa e EMBRAPA)